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Anatel já planeja 6G no Brasil, mas operadoras querem pisar no freio

22 October 2026 at 15:43

A Anatel realizou mais uma audiência pública sobre o leilão das frequências que devem ser usadas para implementar o 6G no Brasil. O encontro presencial com empresas e representantes da sociedade aconteceu em São Paulo nesta quarta-feira (21), uma semana depois da primeira audiência sobre o tema, em Brasília, e ficou marcado pela oposição das operadoras ao calendário apresentado pela agência.

Enquanto a Anatel já começou a se mexer para preparar a chegada do 6G ao Brasil, as grandes operadoras sugerem pisar no freio. A questão está principalmente no calendário.

Começando as primeiras tomadas de subsídios agora, em 2026, a agência trabalha com a possibilidade de realizar um leilão da faixa de 6 GHz em 2028. As operadoras argumentam, porém, que a padronização da tecnologia que será usada no 6G ainda está em desenvolvimento e deve avançar até 2028 ou 2029 no 3GPP, organização global responsável pelos padrões das redes móveis.

Em entrevista exclusiva ao Canaltech, Felipe Lima, gerente de Regulamentação da Superintendência de Planejamento e Regulamentação (SPR) da Anatel, explicou que a intenção da agência neste momento não é apressar a implementação da nova geração, mas começar o debate com antecedência e dar transparência ao processo.

“Estamos numa fase bem preliminar, colocando o assunto para a sociedade e o mercado debaterem”, disse Lima. “Decisões relevantes sobre o 6 GHz já serão tomadas na Conferência Mundial de Rádio em 2027, então é coerente iniciar esse processo agora, para termos uma licitação em 2028 e compromissos para os vencedores a partir de 2029.”

Segundo Lima, preparar uma nova geração de redes móveis é um processo que leva anos. O 5G, inclusive, ainda está em expansão no país. Depois que o texto de uma licitação fica pronto, por exemplo, o Tribunal de Contas da União (TCU) ainda pode levar até 150 dias para analisar o edital antes de autorizar a realização do leilão.

“Será feito um estudo de viabilidade econômica antes de o TCU precificar essa licitação”, afirmou Lima, indicando que as empresas interessadas em adquirir uma fatia da faixa de 6 GHz devem conhecer antecipadamente os custos e compromissos relacionados ao processo.

Felipe Lima anatel

O que a Anatel está propondo para a faixa de 6 GHz

A consulta em andamento não trata apenas de reservar frequências para o futuro 6G. A Anatel também começou a desenhar como a faixa de 6 GHz pode ser dividida, quais empresas poderão disputar o espectro e, principalmente, quais obrigações deverão acompanhar as licenças.

A minuta em discussão organiza a faixa em 14 lotes nacionais e regionais, com blocos destinados a sistemas móveis e autorizações de uso por 20 anos. O objetivo é disponibilizar blocos amplos e contíguos de espectro, reduzindo a fragmentação da faixa e permitindo maior eficiência das redes.

A proposta também associa a aquisição das frequências a compromissos de investimento. Entre as metas previstas estão a ampliação de redes de transporte em fibra óptica e a cobertura móvel de localidades que ainda têm infraestrutura limitada. Essas obrigações devem começar a ser cumpridas entre o fim de 2029 e 2030.

A Anatel ainda precisa detalhar quais municípios e localidades serão beneficiados. Essa lista será importante para definir o tamanho real dos investimentos exigidos das operadoras e evitar que novos compromissos se sobreponham a obrigações de outros programas públicos já em andamento.

Outro ponto sensível são localidades hoje atendidas exclusivamente pela Oi, cuja continuidade de atendimento depois de 2028 também entra na discussão sobre o desenho das novas obrigações.

A intenção da agência é repetir parte da lógica usada no leilão do 5G: em vez de concentrar o valor pago pelas frequências diretamente nos cofres públicos, uma parcela significativa pode ser transformada em investimentos obrigatórios nas próprias redes de telecomunicações.

Leilão pode repetir modelo usado no 5G

Lima espera que o futuro leilão sirva novamente como referência internacional, como aconteceu com o processo do 5G. Em 2021, o leilão brasileiro foi desenhado para ser majoritariamente não arrecadatório. Ou seja, a maior parte do valor movimentado pelas frequências não foi diretamente para o governo, mas convertida em obrigações de investimento das empresas vencedoras.

O processo movimentou cerca de R$ 47,2 bilhões. Desse montante, aproximadamente R$ 7,4 bilhões foram pagos em outorgas à União pelo direito de exploração das frequências, enquanto cerca de R$ 39,8 bilhões, ou aproximadamente 85% do total, ficaram vinculados a compromissos de infraestrutura e modernização das redes.

É justamente esse modelo que a Anatel pretende usar como referência na preparação da faixa de 6 GHz.

Operadoras ainda tentam recuperar investimento do 5G

Apesar de a Anatel considerar bem-sucedido o processo regulatório do 5G e sua expansão de cobertura, as operadoras apresentaram uma visão mais cautelosa durante a audiência desta quarta-feira.

A Vivo, por exemplo, afirmou que a implementação do 5G não provocou até agora um salto comercial comparável ao observado durante a transição para o 4G. A empresa ainda encontra dificuldades para transformar as novas capacidades da rede em receitas adicionais.

O próprio Canaltech já analisou essa diferença entre as promessas apresentadas no início da década e aquilo que chegou efetivamente ao consumidor.

Em uma pesquisa feita em 2025 nas redes sociais do Canaltech, com participação de 3,2 mil pessoas, 85% dos entrevistados afirmaram que o 5G provocou pouca ou nenhuma mudança no consumo de dados móveis. Para tarefas cotidianas, como enviar mensagens ou navegar em redes sociais, muitos usuários simplesmente não perceberam uma diferença tão grande.

Parte das grandes promessas da tecnologia também ainda não se concretizou em escala.

A baixa latência do 5G, por exemplo, foi apresentada como uma tecnologia capaz de viabilizar aplicações como controle remoto de equipamentos médicos e comunicação em tempo real entre veículos autônomos. Para isso, porém, é necessária uma infraestrutura de rede muito mais densa e cara, que não foi instalada em grande escala no Brasil nem em boa parte do mundo.

Esse histórico ajuda a explicar por que as operadoras defendem mais cautela antes de assumir uma nova rodada de investimentos para o 6G.

Marca da Vivo na tela do celular

TIM também quer cautela antes do leilão

A TIM era a única entre as grandes operadoras que ainda não havia apresentado publicamente uma posição mais detalhada sobre o processo. A empresa participou da audiência em São Paulo por meio de Carlos Eduardo Franco, diretor de Assuntos Regulatórios da companhia.

Franco defendeu que eventuais obrigações ambientais, sociais e de governança relacionadas ao processo sejam mensuráveis e possam ser auditadas. Para a empresa, a expansão das redes deve considerar eficiência energética, gestão de resíduos, inclusão digital e governança.

“O processo poderá ser fortalecido com parâmetros econômicos completos, lista transparente de compromissos, regras previsíveis de convivência e refarming, obrigações simples e proporcionais e um desenho de bloco e calendário que considerem a competição, a eficiência espectral, a padronização tecnológica e a evolução do ecossistema de equipamentos e terminais”, afirmou.

Debate sobre o 6G ainda está começando

Apesar do cronograma de 2028, o processo está longe de uma decisão definitiva.

As audiências realizadas em Brasília e São Paulo fazem parte de uma discussão que ainda deve continuar nos próximos meses. A Anatel já planeja realizar um terceiro encontro presencial em Fortaleza, em novembro.

A consulta pública também segue aberta no site da agência e teve seu prazo prorrogado até 7 de dezembro, permitindo que empresas, entidades e cidadãos enviem contribuições para a proposta. Só depois desse processo a Anatel começará a consolidar o texto que poderá resultar no edital do futuro leilão.

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Gigantes pressionam e Claro tira marca chinesa das prateleiras

22 October 2026 at 14:57

A Claro suspendeu as vendas de produtos da chinesa Oppo em todas as suas lojas físicas do Brasil e também retirou as páginas dos celulares da marca de seu site oficial, segundo um memorando interno da operadora obtido pelo Tecnoblog. Conforme apuração do site, a suspensão teria acontecido por causa de bônus pagos pela fabricante chinesa a promotores de pontos de venda físicos para incentivar a recomendação de celulares da Oppo em detrimento de produtos concorrentes.

O Canaltech conseguiu confirmar com fontes independentes ligadas a esses pontos de venda, entretanto, que esse tipo de incentivo financeiro não seria exclusivo da Oppo. Segundo uma fonte ouvida pela reportagem, quase todas as grandes fabricantes realizam campanhas semelhantes com promotores em lojas da Claro e de outras operadoras.

A fonte afirma ainda que a Claro teria cedido à pressão de duas grandes marcas do setor, que também utilizariam esse tipo de incentivo, mas teriam maior influência sobre a operadora.

“Todas as marcas fazem campanha de incentivo para promotor. O ponto de venda é uma guerra”, afirmou a fonte do Canaltech, sob condição de anonimato.

Ponto de venda é mais importante para marcas menores

A presença em lojas físicas é especialmente importante para marcas menores ou que ainda estão construindo reconhecimento no Brasil, como a Oppo.

Isso porque essas fabricantes dependem mais da recomendação de vendedores e promotores para apresentar seus aparelhos ao consumidor. Marcas maiores, por outro lado, conseguem vender muito mais sem essa ajuda porque já têm nome forte, participação relevante no mercado e presença constante na vida das pessoas.

Em outras palavras, um consumidor pode reconhecer determinado celular simplesmente porque alguém da família usa aquele modelo ou porque vê aparelhos da marca diariamente nas ruas, no trabalho ou no transporte público. Para empresas com presença menor, o contato com um promotor dentro da loja pode fazer muito mais diferença na decisão de compra.

O Canaltech procurou a Oppo para esclarecer o tema, e a fabricante informou apenas que sua diretoria está tratando diretamente com a Claro para tentar reverter a suspensão.

Leia a nota na íntegra:

“O tema está sendo tratado diretamente pelas diretorias de ambas as empresas. Em respeito às cláusulas de confidencialidade previstas em contrato, não podemos compartilhar detalhes adicionais neste momento. A OPPO reforça seu compromisso com o mercado brasileiro, seus consumidores e parceiros, e segue dedicada ao fortalecimento de sua presença no país.”

OPPO Find X10

Operadoras têm peso importante na venda de celulares

A Claro é a segunda maior operadora do Brasil em número de clientes, com quase 93 milhões de linhas ativas, segundo relatório do terceiro trimestre de 2026 divulgado pela Anatel.

A empresa também possui milhares de lojas físicas espalhadas pelo país, o que dá à operadora influência considerável sobre quais aparelhos chegam aos consumidores no momento de trocar de celular.

É comum que operadoras ofereçam descontos ou condições especiais quando um smartphone é comprado junto com um plano de telefonia. Isso transforma a loja física em um ponto importante de decisão, especialmente para clientes que já entram no estabelecimento pensando em renovar o plano e sair com um aparelho novo.

Para diminuir essa dependência de varejistas e operadoras, a própria Oppo tem investido em ampliar sua rede de lojas próprias no Brasil. A empresa inaugurou uma nova unidade em São Paulo no último sábado (17) e também planeja expandir sua presença física ainda em 2026, com novos espaços em Brasília, Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Em contato com o Canaltech, a Claro deu uma resposta oficial muito similar à da Oppo, indicando que as marcas poderiam já estar coordenando a situação em conjunto.

"O tema está sendo tratado por ambas as empresas. E, em respeito às cláusulas de confidencialidade previstas em contrato, não é possível fornecer detalhes. É importante destacar que a Claro oferece um portfólio diversificado de smartphones que atende às diferentes necessidades e perfis de consumo dos clientes, com o compromisso de democratizar o acesso à tecnologia 5G.”

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